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«Quem quiser passar aqui tem de vir de capacete»

Por: LSC   |   27-02-2018  |  Voleibol   |  
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Nuno Barcelos Silva não é um nome estranho para os leixonenses. O jogador do voleibol do Leixões está de volta a casa e vem com a intenção bem vincada de ajudar a equipa a conseguir os seus objetivos.

Em entrevista ao leixoessc.pt, Nuno comentou a época que o Leixões tem vindo a realizar, falou-nos de como entrou para o mundo do voleibol, dos jogos que ficaram na sua memória e do peso que o Leixões tem em quem o representa. Dá ainda belas palavras às sereias e à grande época que estão a realizar e faz as suas previsões no campeonato feminino. Deixa um grande elogio à massa associativa leixonense e apela para que venham ainda em maior número apoiar o voleibol.

Como surgiu a paixão pelo voleibol?

O meu pai na altura era treinador dos minis do Leixões. Eu praticava karaté, e naquela altura, com onze anos, não tinha noção do que queria ser. Então acabei por ir experimentar. Os treinos eram no Siza Vieira às quartas de tarde e aos sábados de manhã. A partir daí o bichinho foi ficando e acabei por ingressar no voleibol.

Mas houve alguma influência?
Não. O meu pai sempre jogou voleibol e futebol ao mesmo tempo no Leixões, e pelo facto de ele ter jogado no Leixões quis que eu viesse experimentar um bocado do projeto dele que tinha feito quando era mais novo. O facto de eu ter experimentado o projeto dele, foi um empurrão para eu praticar voleibol.

Mas o teu pai nunca te puxou mais para o voleibol ou para o futebol?
Não. Eu queria ser jogador de basquetebol mas o pai não quis e não me deixou ir. Então eu voltei a falar com ele e perguntei se podia ir para o futebol mas o meu pai também recusou. Então pronto, teve que ser o voleibol! Hoje em dia agradeço-lhe por ter insistido comigo na ida para esta modalidade.

Com que idade começaste a jogar voleibol?
11 anos.

E no voleibol profissional?
Fiz a formação toda no Leixões mas na altura que cheguei a sénior, ou tinha a hipótese de estar a treinar aqui com os melhores, ou tinha a hipótese de jogar. Sou apologista de que uma pessoa começa a ganhar mão e discernimento, é a jogar. Nos treinos pode-se ser muito bom mas se calhar nos jogos já não se vai render tanto por falta de rotatividade. Devia ter 18 anos quando joguei pela primeira vez nos seniores. No entanto optei por sair. Na altura fui para um clube de divisão inferior, o Gueifães.

E tiveste sempre o apoio da tua família e amigos quando começaste a jogar voleibol?
Sim, a minha família sempre me apoiou, até porque tive a sorte de ter bons treinadores. O meu pai era professor de Educação Física na Escola Secundária Augusto Gomes e alguns dos meus treinadores tinham sido alunos dele, ou seja, já havia ali uma boa relação entre a minha família e os meus treinadores, uma espécie de cumplicidade. Depois também tive a hipótese de frequentar as seleções mais jovens de cadetes e de juniores e isso foi sempre motivo de orgulho. O que custava mais era, por exemplo, no natal, quando eu via que só tinha dois dias de férias e o resto dos meus colegas tinham duas semanas, mas tinha que ser. Se queria realmente um futuro no voleibol tinha que aguentar. Às vezes queria desistir mas a minha família não aceitou essa decisão e por isso mesmo agradeço-lhes.

Já vimos que tens centenas de jogos na tua carreira. Tens algum que te tenha marcado, por bons ou maus motivos?
A única vez que fui campeão nacional, é dos jogos que tenho melhor memória, tanto por ter sido campeão nacional, tanto por nos 3 anos anteriores ter sido sempre vice-campeão nacional e ter perdido sempre contra a mesma equipa.Nesse meu último ano de júnior, devido a um conjunto de resultados, só precisávamos de ganhar um set ao Sporting Clube de Espinho. Todos que estavam comigo já tinham sido campeões nacionais no ano anterior menos eu.Nesse dia eu e o Ricardo Ventura tínhamos acordado mesmo muito cedo e estávamos mesmo ansiosos que o jogo começasse para trazermos o titulo para casa. Ganhamos o primeiro set, perdemos o segundo, perdemos o terceiro, ganhamos o quarto e na negra eles levaram a melhor. Mas chegou a uma altura em que nós já nem queríamos saber.O que tanto ambicionávamos já tinha acontecido. Já éramos campeões, e já ninguém nos tirava a taça. Como forma de festejo, eu lembro-me que avançamos um muro que dava acesso a umas piscinas. O problema é que era Maio e as piscinas estavam fechadas, a água estava cheia de lodo, mas nós nem quisemos saber. Tirámos as roupas e siga para dentro da piscina. Foi inesquecível! Um dos jogos que me tenha marcado pela negativa assim mais recentemente talvez tenha sido pelo Atlântico da Madalena. Foi daqueles jogos que era, ou mata ou morre. Ou ganhávamos e mantínhamos-nos, ou perdíamos e descíamos.Foi um jogo que acabou por ficar 3-2, com muita emoção à mistura. Acabamos por ser despromovidos e descer de divisão. É sem dúvida a pior sensação que podes sentir.

Sendo o Leixões o clube com mais títulos nacionais de voleibol, achas que isso causa alguma pressão para quem vem jogar para cá?
Claro! Mas isso aplica-se a todas as modalidades. Quem venha jogar para o Leixões, que é um clube com tanto ano de história, é o clube da cidade, vai sentir um enorme peso.Toda a gente que venha aqui parar, nos primeiros tempos, sempre que vai treinar ou só o facto de entrar aqui na Nave, vai sentir os joelhos a tremer. O primeiro jogo que alguém faz com a camisola do Leixões vai pesar. E eu falo disto até com colegas da minha equipa que pela primeira vez estão no Leixões. O primeiro jogo que nós fizemos em casa com o Vitória, uma pessoa olhava para a bancada e ficava completamente estupefacto. Se eu que sou da casa e fiquei arrepiado, imagino quem nunca cá tenha jogado. Os adeptos sempre a puxar por nós, nunca se calavam. É uma mística diferente.


“O primeiro jogo que alguém
faz com a camisola
do Leixões vai pesar”



E sendo tu um homem da casa sentes a responsabilidade de incutir essa mística?
Graças a Deus somos vários.  A direção fez uma boa aposta em ir buscar tudo o que era gente da casa e acrescentar um ou outro elemento que não fosse. No seio do grupo acho que a maneira de nós nos darmos, dá a conhecer um bocado do que é o Leixões. Não só eu como todos da nossa equipa, inocentemente, acabam por transmitir a mística. Até mesmo com o Mário e o Bruno (treinadores da equipa sénior feminina e masculina do Leixões respetivamente) já existe uma relação de quase família.

Qual é o ambiente no balneário antes dos jogos? Qual é o atleta que fica mais nervoso e qual é que fica mais tranquilo?
Ou somos todos muito bons mentirosos ou então o pessoal só quer é entrar. Não consegues reparar quem está nervoso ou não. Se calhar pelas brincadeiras, consegues ver mais ou menos, quem está ou não mais nervoso. Mas depois também há aquela incógnita. Nunca sabes quem é que vai jogar. Mas isso também é bom pois toda a gente tem que estar totalmente preparada. Depois existem os mais novos que não sabiam o que haviam de esperar devido ao ambiente durante o jogo. No entanto, mal pomos os pés em campo já nos passa tudo ao lado e estamos focados no jogo.

Costumas levar o ambiente pós-jogo para casa?
Quando estás em jogo ou quando participas no jogo acabas por sentir um bocadinho mais caso seja vitória ou derrota e se calhar acabas por levar um bocado o ambiente para o balneário. Estando no banco e perdendo, sais daqui mesmo frustrado porque tens sempre aquela sensação que podias ter jogado mais e ajudado a equipa. Isso podia até não acontecer mas a nossa cabeça pensa assim. Por exemplo a minha mãe vem sempre ver o jogo. Se tiver chateado, ela sabe que não pode fazer muitas perguntas sobre o voleibol. O mesmo acontece com os meus amigos. No entanto se ganhar, estou tão eufórico que também não quero falar sobre voleibol. É bom sair daqui e não levar o ambiente para casa.

Quanto à época que o Leixões está a fazer. Achas que está tudo dentro do delineado no início da época?
Está. O pessoal propôs-se a trabalhar desde o início da época de modo a que não passasse pelo sufoco da última época. Mesmo que tivéssemos que ter treinos duas semanas seguidas sem uma única folga mas que fosse para trabalhar em prol do Leixões, que assim o fosse. Da maneira como nós estamos acho que apenas pecamos por, em alguns jogos, não os termos resolvido logo e termos entrado, em alguns momentos, num certo relaxamento, inconscientemente.


“Quem quiser passar
aqui tem de
vir de capacete”



Depois do primeiro objetivo estar cumprido, o apuramento para a fase final, o que podemos esperar mais?
Sinceramente, eu acho que nós temos hipóteses de alcançar a final da primeira divisão. Se estivermos bem fisicamente e mentalmente conseguimos almejar chegar à final mas para isso precisamos de ser muito constantes, porque depois nos play-offs, ou seja, fase de eliminatória, é ou mata ou morre.



E os objetivos a nível pessoal?
O primeiro objetivo foi logo conseguido no início da época, que foi voltar ao Leixões. Eu queria voltar ao Leixões e voltar a ser feliz neste clube. Mas o meu mesmo, era tentar fazer o maior número de jogos possíveis e ajudar a equipa dentro de campo. Para já estou a conseguir fazê-lo, não me posso queixar. Não tenho esses objetivos de ser o melhor servidor nem nada disso. Desde que jogo a sénior, sempre fui passador por isso nem sequer posso pensar nisso. Tenho é que ajudar os outros a fazer pontos. Agora um objetivo que tenho desde que sou sénior que é fazer no mínimo 3 pontos, sejam eles como forem.

Tens certamente acompanhado a campanha da equipa sénior feminina. Que comentário tens a fazer à época que estão a fazer?
Em primeiro lugar elas começaram muito bem com a conquista da supertaça. Foi logo para pôr as outras equipas em sentido e mostrar quem é que mandava cá. Segundo, o campeonato feminino, tal como o masculino, também está muito competitivo. Há equipas lá em cima como o Leixões e o AVC, o Porto Vólei que costumava estar bem lá em cima e agora já não está tão bem. Depois o Boavista, o Clube K, o Castêlo que também tem vindo a fazer bons jogos. Mas pelo que tenho visto, elas estão a saber dar conta do recado e "cheira-me" que no final do ano, o campeonato vai resumir-se apenas ao Leixões e ao AVC pois, neste momento, são as duas melhores equipas.



Então, as seniores femininas podem voltar a ser campeãs?
Sim é possível. Da forma como a Nave estava no último jogo da época passada, torna-se muito mais fácil. Se os adeptos vierem apoiar, tanto a equipa masculina como a feminina em exagero, mas mesmo exagero, ninguém passa. Eu vi aqui o jogo entre o Leixões e o Boavista e foi muito engraçado. Estava pessoal do Leixões e o pessoal do Boavista cada um a puxar para o seu lado, muito tranquilo, sem insultos e no entanto foi um jogo espetacular. Por isso penso que as seniores têm hipótese de revalidar o título mas com o apoio dos adeptos torna-se muito mais fácil.

Sendo tu um atleta com muitos anos de voleibol nas pernas tens algum conselho que queiras dar aos mais novos?
Bem, o que eu posso dizer é que, por muito que se goste de desporto, não se percam dos estudos. Os estudos são fundamentais. Eu falo também por mim pois, quando era mais novo descurei um bocado os estudos porque só queria treinar, e hoje em dia podia ter uma vida profissional mais estável do que tenho. No entanto também nunca faltei a um treino para estudar. Se eu tivesse um teste arranjava sempre maneira de estudar de manhã, deitava-me um bocado mais tarde, abdicava dos intervalos da escola, ou fosse o que fosse, só para não faltar aos treinos. Arranjava maneira de me organizar. Na minha opinião, é o que falta aos jovens de hoje em dia. Não tem essa capacidade. Ou querem muito desporto e deixam a escola de lado, ou então querem muito a escola e deixam o desporto de parte. O conselho mesmo é, não descuidem da escola mas não desistam do desporto. Aproveitem as duas coisas ao máximo.

Para além do voleibol o que mais gostas de fazer?
Gosto muito de estar com a minha família e amigos. O meu núcleo de amigos são todos extra-voleibol. Tive essa sorte pois assim não tenho que estar constantemente a falar do mesmo assunto. Consigo abstrair-me um bocado e isso pôs-me no sítio.Se bem que o meu melhor amigo joga comigo e estou todos os dias com ele. Mas basicamente é isso, estar com os meus amigos e com a minha família.



Para além de estares com os teus colegas de equipa nos treinos e jogos, costumas sair com eles?
Sim. Costumo estar muitas vezes, fora desse ambiente, com o Bruno Sousa. Vamos jantar fora várias vezes. Ele como já é pai, vamos quase sempre dar umas voltas. A nossa equipa é toda muito unida.

Então e sendo vocês um grupo unido, que mensagem queres passar aos leixoneses, em nome de todos os teus colegas?
Que nos venham apoiar! Que de todas as vezes que conseguirmos encher as três bancadas da nave com adeptos leixonenses, tornemos isto num verdadeiro inferno. E já se viu que, estando isto cheio como já esteve, quem quiser passar aqui tem que vir de capacete, mas nem assim passam porque nós vimos com mísseis e tanques ou com o que for preciso. É importante ter uma família muito unida pois assim conseguimos levar o Leixões ao lugar que merece estar.